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O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular by Alberto Pimentel
O Desgra?a
Entre os typos populares, que pouco a pouco v?o rolando a sepulturas ignoradas, deixando após si o rasto de uma vida sobremodo accidentada de peripecias quasi sempre sombrias-rasto que só um ou outro escriptor se compraz em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue ao cemiterio-avulta na tradi??o portuense um homem que por longo tempo ahi foi o alvo das assuadas do rapazio e dos chascos dos frequentadores de botequim. Uns chamavam-lhe o José das Desgra?as, outros simplesmente o Desgra?a.
Parece dever inferir-se de t?o lutuosa alcunha que a popula??o da cidade lhe conhecia a biographia exuberante de lastimosos lances. Tal n?o ha. Quando elle passava coxeando arrimado ao seu bord?o, sobra?ada a guitarra inseparavel, de velho chapéo alto amassado, sobrecasaca abotoada, pendente a medalha de prata da guerra peninsular, annel d'ouro na m?o esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle proprio manipulava com pontas de charuto, seguido do c?o fiel, que se chamava Junot, por motivos que mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, ou rompia em apostrophes de ó Desgra?a! ó Desgra?a! que elle parecia n?o ouvir ou despresar em sua imperturbavel serenidade.{8}
E a popula?a, sem sequer suspeitar da tenebrosa origem do cognomento, quedava-se a ouvil-o, calmadas as arrua?as com que era saudado, quando elle, sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim de S. Lazaro, come?ava a tanger melancolicamente a sua guitarra, na qual executava operas completas, queimando o seu enorme rolo de tabaco e contemplando, de cabe?a inclinada, o c?o que parecia escutal-o attentamente...
Depois, quando a m?o caía extenuada sobre as cordas silenciosas, affigurava-se, t?o alheado ficava, que estava rememorando maguas intimas, segredos da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento das esmolas que lhe atiravam ao rega?o os que entravam ou saíam a porta do botequim.
ás vezes, como se n?o houvesse conseguido linimentar com a musica as recorda??es dolorosas acordadas no imo peito, voltava a tanger na guitarra uns dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a alma tempestuosamente alanceada, chorando por elle, que n?o tinha lagrimas.
Restituido á realidade da sua resignada nobresa, erguia-se firmado no bord?o, sobra?ava a guitarra, e continuava a peregrina??o, vagueando pelas ruas da cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo impassivel os óbolos que jámais solicitava. E o c?o, o leal companheiro de infortunio, seguia egualmente resignado seu dono, e quasi sempre indifferente ás provoca??es do rapazio que se divertia em apedrejal-o e a?ulal-o.
Frequentemente intervinha o Desgra?a amea?ando com o bord?o os perseguidores do seu dedicado companheiro; mas como o inquieto rapazio conhecesse que a velhice lhe desnervava o bra?o, entrava de levantar celeuma atroadora, em que, ainda assim, quasi sempre se distinguiam vozes de ?Morra o Desgra?a e o Junot! Vende o annel e n?o andes a pedir!?
Estranho homem devia de ser esse, que parecia guardar grande mysterio, e tinha por unico amigo, entre uma popula??o inteira, que o apupava, o c?o fiel, e por consola??o unica a sua guitarra, e por unica protec??o a piedade dos seus conterraneos, que elle n?o implorava.
O povo n?o suspeitava sequer que a biographia{9} d'aquelle homem justificasse o appellido. Quando o Desgra?a fazia chorar a guitarra entre os dedos, e o c?o denunciava comprehender a guitarra, como que ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas d'ahi a pouco, quando estrondeavam os apupos, era o c?o o unico espectador que mostrava lêr na physionomia do velho o mysterio de uma vida tormentosa.
Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia de homem e c?o. E todavia n?o saía d'entre a arraia miuda o mais desgra?ado dos populares a dizer ao pensativo guitarrista: ?O teu c?o sente e n?o fala; eu falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas consola??o. Eu sou tambem muito infeliz, muito mais do que tu, porque n?o tenho guitarra nem c?o. Deixa-me pois compartir do teu c?o e da tua guitarra, que eu te darei o que tu n?o tens, dois ouvidos que te escutem, uma voz que te responda.?
N?o. A desgra?a é t?o infeliz, que se ri da desgra?a; é ella que se desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam para chasqueal-o, para lhe cuspir na face a zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar, deixava resvalar aos pés.
E todavia aquelle homem era um grande desgra?ado, que só tinha no mundo a sua guitarra, o seu c?o, e as suas recorda??es. O annel, que trazia na m?o esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, mas n?o haveria miseria que lh'o arrancasse do dedo, porque as suas recorda??es estavam n'aquelle annel.{10}
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O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular
Alberto Pimentel
Literature
Chapter 1 No.1
04/12/2017
Chapter 2 No.2
04/12/2017
Chapter 3 No.3
04/12/2017
Chapter 4 No.4
04/12/2017
Chapter 5 No.5
04/12/2017
Chapter 6 No.6
04/12/2017
Chapter 7 No.7
04/12/2017
Chapter 8 No.8
04/12/2017
Chapter 9 No.9
04/12/2017
Chapter 10 No.10
04/12/2017
Chapter 11 No.11
04/12/2017
Chapter 12 No.12
04/12/2017
Chapter 13 No.13
04/12/2017
Chapter 14 No.14
04/12/2017
Chapter 15 No.15
04/12/2017
Chapter 16 No.16
04/12/2017
Chapter 17 No.17
04/12/2017
Chapter 18 No.18
04/12/2017
Chapter 19 No.19
04/12/2017
Chapter 20 No.20
04/12/2017
Chapter 21 No.21
04/12/2017