5.0
Comment(s)
42
View
45
Chapters

O Inferno by Auguste Callet

O Inferno Chapter 1 No.1

O bem

(BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)

Se a morte vos sobresaltêa antes da penitencia, diz-se que sois condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperan?a, tanto como se houvesseis sido um ladr?o calejado, um parricida, um atheu. Lá vos está esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado como ave cahida no la?o. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos longos servi?os ao genero humano contrabalancem o peccado final!

Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis for?ado a reconhecer que as probabilidades s?o dissimilhantes, e que o mais certo, fa?a-se o que se fizer, é a condemna??o.

D'onde procede nas imagina??es vivas a dominante preoccupa??o de evitar o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfei??o christ?. Tal é o retiro ao deserto, a renuncia??o propria, o morrer antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a macera??o, o jejum, o perpetuo silencio, a insula??o, o odio ao mundo, a ora??o entre quatro paredes. é, tambem, a santifica??o do celibato, como se a fecundidade dos sexos houvesse sido amaldi?oada, como se fosse culpa continuar a filia??o de Ad?o, e virtude esterilisar em si os embri?es da vida humana.

E certo é que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento que lhe anda annexo, que outra conclus?o se colhe? Multiplicar os homens, para que? para multiplicar os peccados? Se é t?o duvidosa a salva??o! Se a condemna??o é t?o facil! Para que nos enla?aremos á orla d'um abysmo onde o esposo póde despenhar-se com a esposa e o pae com os filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de desgra?ados. N?o seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os celibatarios! Os sabios s?o os reclusos, os anachoretas, os eremitas. S?o como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam só do seu salvamento; cada qual por si; soccorrer o irm?o tem o risco de naufragio. Fazei como elles, navegantes; deixae no navio em soss?bro mercadorias, thesouros, e vossas mulheres, e m?es, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.

Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus modelos, Sime?o sobre a columna, Jo?o no muladar, esses desvariados todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam: n?o tem que vêr com a terra, e já est?o meios mettidos no ceo: o diabo já mal os póde aprezar.

N?o é, todavia, a perfei??o dos ascetas aquella que o Filho do homem nos exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias sómente ermou no deserto, n?o para nos lá attrahir; mas, a meu vêr, para nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam sómente, que o espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. é para notar que nas suas modestas occupa??es, sob o colmado do carpinteiro, e mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que ensinou, curou e nutriu, n?o ousou o diabo tental-o!

Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e tantissimos outros piedosos desatinos n?o recordam exemplos do Salvador, mas sim as aberra??es dos sectarios do oriente. N?o póde ser isto a perfei??o que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfei??o muitissimos seculos antes d'Elle já era conhecida dos pag?os idolatras, que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chaldêa. Tal perfei??o praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja ra?a ainda subsiste. Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos rebeldes e a da reprova??o dos homens-doutrinas cujo natural fructo é tal casta perfei??o. Se o ideal da perfei??o humana fosse isto, inutil seria o christianismo; pois que já os brahmanes a tinham ensinado dous mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil annos antes dos monges da Thebaida.

é certissimo que os bouddhistas n?o visam exactamente ao mesmo sc?po que os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte absoluta, a destrui??o de sua personalidade, o serem absorvidos no ser universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu eu neste mundo, é para o retomarem n'outra vida. é, comtudo, egualmente certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas procuram a eterna bemaventuran?a uns, e outros o perpetuo dormir, a eterna insensibilidade. Só de per si o desejo do ceo n?o bastaria a inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da anniquila??o: pelo que, n?o é o desejo, sen?o o medo que pov?a os desertos. Os bouddhistas, por egual com os christ?os transviados, temem os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo n?o attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos monges, vida perfeita é o absterem-se da vida, é a virgindade, o jejum, a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de estereis virtudes, n?o filhas do amor, sen?o do mêdo.

Tal é, na sua mais elevada express?o, o bem que a cren?a do inferno produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado este dogma! é, porém, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. N?o ha ahi imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, é isto mais que muito verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua fé. N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do anno. D'elles alguns, para maior perfei??o, n?o usavam nunca os direitos conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato, denegando-se as frias caricias que o irm?o faz a sua irm?. Os ricos empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos. Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema, vestidos nem apontados nem de pre?o, jejuns em barda, orar dia e noite, lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de christ?os era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunh?o; e, antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espa?o de mezes e annos, quando o n?o eram até morrerem. Em quanto durava a penitencia, eram apontados, n?o só nos templos, durante os mysterios, sen?o tambem no exterior e nas rela??es da vida civil; e, por cima de ninguem os querer á sua meza, até as esmolas lhes regeitavam.

Diz com ras?o Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre parêlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continua??o é[2]. E accrescenta[3] que já entre aquelles fieis havia ascetas d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares. Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos, trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esfor?avam-se por imitar a vida de Jo?o Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.

Curavam elles pois, como já dissemos, uma perfei??o diversa da de Jesus: anhelavam a perfei??o negativa, qual os judeus e os orientaes a preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christ?os seus imitadores continuavam inadvertidamente a tradi??o, n?o já de Jesus, mas de Jo?o Baptista e Elias, tradi??o congruentissima com o inferno. Já no tempo das persegui??es era povoada a Thebaida; n?o tinha ent?o a Igreja um tecto debaixo do ceo; e só depois que principiou a erguer templos é que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das catacumbas. é pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o catholicismo n?o se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das praticas de ent?o, e que a vida monachal detestada por elles, é ainda hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso fructo dos dogmas hebraicos, que elles t?o piedosamente tem conservado.

[2] Costumes dos israelitas e christ?os, tom. II, cap. 53.

[3] Costumes dos israelitas e christ?os, cap. 26.-Citei esta excellente obra por que ella é manuseada por todos, e facilima de consultar. De mais a mais, depara-nos a indica??o das fontes onde o auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro.

Continue Reading

You'll also like

No Longer Mrs. Cooley: The Architect's Return

No Longer Mrs. Cooley: The Architect's Return

Xiao Xiaosu
4.5

I went to the City Clerk’s office for a routine copy of my marriage license to finalize a trust fund audit. I expected a simple piece of paper, but the clerk’s pitying look told me my entire life was a lie. "The license was never finalized, Ms. Oliver. In the eyes of the state, you are single." The three-hundred-guest wedding at the Plaza and the Vogue features meant nothing. My husband, Gray Cooley, had intentionally filed the documents with a "procedural defect" so he could discard me without a legal divorce. Moments later, an iCloud invite titled "Our Little Secret" popped up on my screen. It was a photo of my best friend, Brylee, holding a positive pregnancy test at our Hamptons estate. Gray’s text to her was the final blow: "Happy anniversary, babe. This baby is the best gift. Once the trust unlocks today, we’re done with the charade." I soon discovered they were even stealing my career, reassigning my architectural masterpiece to Brylee while preparing my eviction notice. Gray's mother called me a "barren mule" in a leaked recording, mocking the infertility I suffered after saving Gray’s life in a construction accident. I wasn't a wife; I was a three-year placeholder used to secure his inheritance. How could the man I bled for treat me like a disposable prop? How could my best friend carry his child while pretending to comfort me through my darkest moments? The betrayal burned until it turned into a cold, hard stone of fury. I didn't cry. Instead, I walked into the penthouse of the Barretts, the Cooleys' most powerful rivals. I signed a marriage contract with Kane Barrett, the man the tabloids called the "Beast of Wall Street." "I want a wedding," I told his father, my voice steady and lethal. "Bigger than the one I had with Gray." If they wanted me gone, they would have to watch me become the woman who owns their world.

Betrayed Bride: Claimed By The Brother

Betrayed Bride: Claimed By The Brother

Reilly Mcardle
5.0

I arrived at the hotel with Julian's favorite takeout, ready to surprise my fiancé before our big merger. But the moment I swiped the keycard, the silence of the hallway felt heavy and wrong. Inside, a red-soled stiletto lay on the marble floor-the same one I'd watched my best friend Lila try on at Saks last week. Through the cracked bedroom door, I watched Julian's back arch as Lila looked me straight in the eye and smiled, wrapping her legs tighter around him to mock my heartbreak. I fled to the penthouse to hide, only to find Grafton, Julian's "crippled" brother, waiting in the dark. To my horror, the man who was supposed to be paralyzed stood up from his wheelchair, gripped my chin with cold fingers, and forced me to sign a contract that gave him control of my family's shares. He knew about my mother's secret medical bills and used them to buy my silence, effectively turning my life into a calculated game of corporate chess. The betrayal tasted like acid, and the injustice of it all burned in my throat. My fiancé was a liar, my best friend was a thief, and the man now controlling my fate was a predator who had been faking his disability for years. I couldn't understand how everyone I trusted had turned out to be a monster. I was trapped between a man who cheated on me and a man who wanted to own me, with no way out and no one to turn to. But when Julian came looking for me, Grafton didn't hide; he stood tall, looming over me with a possessive glint in his eyes. "Help me destroy Julian," I rasped, realizing that to survive the Faulkner men, I had to become the most dangerous player of them all.

Chapters
Read Now
Download Book