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Prólogo.
Após passar o dia fazendo as tarefas da casa, Mariane estava exausta. Ela comeu um pedaço do pão duro, tomou água e desceu para o porão.
Deitou num colchão fino sobre os paletes e se cobriu com uma colcha de retalhos. Quando finalmente fechou os olhos, foi atormentada pela mão com uma luva de película. Sempre tinha o mesmo pesadelo, mas naquela noite, ouviu uma voz feminina murmurar:
— Faça uma boa viagem, querida.
Mariane ergueu os olhos, mas a visão estava borrada; por isso, não conseguiu ver quem era.
— Não se preocupe com a sua filha. — A voz mansa ecoou enquanto Mariane tentava lutar contra o torpor dos tranquilizantes. — Prometo que vou ajudar Cian a cuidar da Maya.
Mariane moveu os lábios, mas as palavras não saíram. Logo, uma calma forçada a dominou.
Num solavanco, abriu os olhos e percebeu que o carro estava andando sozinho pela estrada acidentada. Ela se esforçou para segurar o volante e, antes da primeira curva fechada, pisou no freio. O pedal foi até o fundo, mas não funcionou.
Fazendo um esforço descomunal, empurrou a porta e então foi lançada pra fora do carro em movimento. O corpo rolou pelo mato espinhoso, batendo em pedras, enquanto o veículo continuava até cair no desfiladeiro.
Mariane estava deitada de bruços, com o sangue escorrendo por seus olhos. Ela ainda podia ver as rodas do carro girando no abismo antes da explosão final.
— Cian, cuida da Maya — pediu antes de dar o último suspiro e ser tragada pela escuridão.
De repente, Mariane despertou e deu um solavanco no colchão sujo do porão, sentando-se bruscamente no porão, que era o seu cativeiro no último ano. O suor frio escorria por seu pescoço enquanto seus olhos percorriam a volta. Sentia como se tivesse renascido das cinzas. Aquela era a chance que precisava pra consertar tudo.
— Maya! — Os batimentos cardíacos estavam agitados quando sussurrou o nome da filha.
A amnésia, que antes era uma névoa protetora, se dissipou por completo. Ela passou as mãos trêmulas pelo rosto, sentindo as cicatrizes finas que o acidente deixou em seu rosto.
— Tentaram me matar... — murmurou para as paredes úmidas enquanto lágrimas brotavam de seus olhos.
A dor da traição era imensa, mas ela só conseguia pensar na filha e no marido.
“Tenho que sair daqui”, falou consigo mesma, procurando uma saída.
O que Mariane não imaginava era que o marido estava no quarto deles, tentando apagar as lembranças dela sob o peso do corpo da babá de sua filha.
─── ⋆⋅☆⋅⋆ ───
Um ano antes...
— Eu quero a mamãe! — Um berro infantil rompeu o silêncio da mansão Verran.
O som veio da ala privada, onde Evelyne Mendes não podia entrar. Ela continuou esfregando o piso da ala oeste, curvada sobre o esfregão e o balde.
— Mamãe! — Desta vez, o grito desesperado da menina fez Evelyne engolir em seco.
Ela largou o esfregão ao lado do balde e correu. A porta estava somente encostada quando Evelyne viu a garotinha.
Maya era uma menina de cinco anos e estava jogada na cama, fazendo pirraça e chutando os lençóis.
Evelyne ignorou a governanta e entrou. A sua presença capturou a atenção da pequena Maya Verran no meio de um soluço.
— Querida, o que houve? — Evelyne se aproximou lentamente.
— Estava com saudades de você, mamãe... — Ao dizer, a menina olhou Evelyne através de uma cortina de lágrimas.
Maya passou as mãos pequenas no rosto. O choro não parou, mas diminuiu de intensidade quando a mulher se sentou na beirada da cama e deu um sorriso gentil.
Por um instante, o corpo da criança relaxou. Maya se inclinou para frente, encostando a cabeça em seu ombro. Os soluços diminuíram até virarem apenas ruídos respiratórios.
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