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O Devasso

One Girl, A Pack Of Beasts

One Girl, A Pack Of Beasts

Brass Wren
Lillian woke in a werecreature universe as a total loser. Good news was that women ruled here and could take multiple mates, yet she still ended up as the one everyone looked down on. Compared to her talented sister at every turn, she watched her first match get stolen and her next four mates reject her without mercy. The first mate was the King of Succubine himself. On their very first meeting, he warned Lillian that he was only staying long enough to recover from his injuries-and that there could never be anything between them. The second mate was a merman. He took one look at her and said he had no interest in a loser like her, tossing her some cash so she could break off their bond herself. The third mate was the progenitor vampire-over a thousand years old. He admitted to admiring her sister instead and made it clear he had no interest in a layabout like Lillian. Lillian cut every bond and chose her own path instead. But as she rose higher and higher, those same men returned, full of regret and begging her to look at them again. The fourth mate was a werewolf Lillian had rescued from an underground fighting ring. She thought he might actually stay-until he revealed himself as royalty. And of course, he wanted to break their bond for more power.
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Eu chamo-me Theodoro-e fui amanuense do Ministerio do Reino.

N'esse tempo vivia eu á travessa da Concei??o n.o 106, na casa d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administra??o do bairro central, esguio e amarello como uma tocha d'enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola franceza.

A minha existencia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas de lustrina á carteira da minha reparti??o, ia lan?ando, n'uma formosa letra cursiva, sobre o papel Tojal do Estado, estas phrases faceis: ?Ill.mo e Exc.mo Snr.-Tenho a honra de communicar a V. Exc.a... Tenho a honra de passar ás m?os de V. Exc.a, Ill.mo e Exc.mo Snr...?

Aos domingos repousava: installava-me ent?o no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara d'ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora, sobretudo no ver?o, era deliciosa: pelas janellas meio cerradas penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da Concei??o Nova, e o arrulhar das rolas na varanda; a monotona susurra??o das moscas balan?ava-se sobre a velha cambraia, antigo véo nupcial da Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicaes; pouco a pouco o tenente, envolvido n'um len?ol como um idolo no seu manto, ia adormecendo, sob a fric??o molle das carinhosas m?os da D. Augusta; e ella, arrebitando o dedo minimo branquinho e papudo, sulcava-lhe as rêpas lustrosas com o pentesinho dos bichos... Eu ent?o, enternecido, dizia á deleitosa senhora:

-Ai D. Augusta, que anjo que é!

Ella ria; chamava-me engui?o! Eu sorria, sem me escandalisar. Engui?o era com effeito o nome que me davam na casa-por eu ser magro, entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter á cabeceira da cama uma lithographia de Nossa Senhora das D?res que pertencera á mam?, e corcovar. Infelizmente corcóvo-do muito que verguei o espinha?o, na Universidade, recuando como uma pêga assustada diante dos senhores Lentes; na reparti??o, dobrando a fronte ao pó perante os meus Directores Geraes. Esta attitude de resto convém ao bacharel; ella mantem a disciplina n'um Estado bem organisado; e a mim garantia-me a tranquillidade dos domingos, o uso d'alguma roupa branca, e vinte mil reis mensaes.

N?o posso negar, porém, que n'esse tempo eu era ambicioso-como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lepido Couceiro. N?o que me revolvesse o peito o appetite heroico de dirigir, do alto d'um throno, vastos rebanhos humanos; n?o que a minha louca alma jámais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida d'um correio choitando;-mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com Champagne, apertar a m?o mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, n'um extasi mudo, sobre o seio fresco de Venus. Oh! mo?os que vos dirigieis vivamente a S. Carlos, atabafados em paletots caros onde alvejava a gravata de soirée! Oh! tipoias, apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros-quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil reis por mez e o meu geito encolhido de engui?o me excluiam para sempre d'essas alegrias sociaes vinha-me ent?o ferir o peito-como uma frecha que se crava n'um tronco, e fica muito tempo vibrando!

Ainda assim, eu n?o me considerava sombriamente um ?pária?. A vida humilde tem do?uras: é grato, n'uma manh? de sol alegre, com o guardanapo ao pesco?o, diante do bife de grelha, desdobrar o Diario de Noticias; pelas tardes de ver?o, nos bancos gratuitos do Passeio, gozam-se suavidades de idyllio; é saboroso á noite no Martinho, sorvendo aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a patria... Depois, nunca fui excessivamente infeliz-porque n?o tenho imagina??o: n?o me consumia, rondando e almejando em torno de paraisos ficticios, nascidos da minha propria alma desejosa como nuvens da evapora??o d'um lago; n?o suspirava, olhando as lucidas estrellas, por um amor á Romeo, ou por uma gloria social á Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao tangivel, ao que já f?ra alcan?ado por outros no meu bairro, ao que é accessivel ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma table d'h?te mastiga a bucha de p?o secco á espera que lhe chegue o prato rico da Charlotte russe. As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como portuguez e como constitucional:-pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das D?res, e comprava decimos da loteria.

No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvolu??es do meu cerebro me n?o habilitavam a comp?r odes, á maneira de tantos outros ao meu lado que se desforravam assim do tedio da profiss?o; como o meu ordenado, paga a casa e o tabaco, me n?o permittia um vicio-tinha tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia, Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados... O typo venerando, o papel amarellado com picadas de tra?a, a grave encaderna??o freiratica, a fitinha verde marcando a pagina-encantavam-me! Depois, aquelles dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacifica??o a todo o meu sêr, sensa??o comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua triste...

Uma noite, ha annos, eu come?ára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos, um capitulo intitulado Brecha das Almas; e ia cahindo n'uma somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:

?No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será ent?o um cadaver: e tu verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambi??o d'um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha??

* * *

Estaquei, assombrado, diante da pagina aberta: aquella interroga??o ?homem mortal, tocarás tu a campainha?? parecia-me facêta, picaresca, e todavia perturbava-me prodigiosamente. Quiz lêr mais; mas as linhas fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, d'uma lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpella??o estranha-?tocarás tu a compainha??

Se o volume fosse d'uma honesta edi??o Michel-Levy, de capa amarella, eu, que por fim n?o me achava perdido n'uma floresta de ballada allem?, e podia da minha sacada vêr branquejar á luz do gaz o correame da patrulha-teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a allucina??o nervosa. Mas aquelle sombrio in-folio parecia estalar magia; cada letra affectava a inquietadora configura??o d'esses signaes da velha cabala, que encerram um attributo fatidico; as virgulas tinham o retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos n'uma alvura de luar; no ponto d'interroga??o final eu via o pavoroso gancho com que o Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na inviolavel cidadella da Ora??o!... Uma influencia sobrenatural apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fóra da realidade, do raciocinio: e no meu espirito foram-se formando duas vis?es-d'um lado um Mandarim, decrepito, morrendo sem d?r, longe, n'um kiosque chinez, a um ti-li-tin de campainha; do outro toda uma montanha de ouro scintillando aos meus pés! Isto era t?o nitido, que eu via os olhos obliquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos d'uma tenue camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E immovel, arripiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um diccionario francez-a campainha prevista, citada no mirifico in-folio...

Foi ent?o que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metallica me disse, no silencio:

-Vamos, Theodoro, meu amigo, estenda a m?o, toque a campainha, seja um forte!

O abat-jour verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um individuo corpulento, todo vestido de preto, de chapéo alto, com as duas m?os cal?adas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo d'um guarda-chuva. N?o tinha nada de phantastico. Parecia t?o contemporaneo, t?o regular, t?o classe-média como se viesse da minha reparti??o...

Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e duras; o nariz brusco, d'um aquilino formidavel, apresentava a express?o rapace e atacante d'um bico d'aguia; o córte dos labios, muito firme, fazia-lhe como uma bocca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam dois clar?es de tiro, partindo subitamente d'entre as sar?as tenebrosas das sobrancelhas unidas; era livido-mas, aqui e além na pelle, corriam-lhe raia??es sanguineas como n'um velho marmore phenicio.

Veio-me á idéa de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo o meu raciocinio se insurgiu resolutamente contra esta imagina??o. Eu nunca acreditei no Diabo-como nunca acreditei em Deus. Jámais o disse alto, ou o escrevi nas gazetas, para n?o descontentar os poderes publicos, encarregados de manter o respeito por taes entidades: mas que existam estes dois personagens, velhos como a Substancia, rivaes bonacheir?es, fazendo-se mutuamente pirra?as amaveis,-um de barbas nevadas e tunica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos luminosos, entre uma c?rte mais complicada que a de Luiz XIV; e o outro enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chammas inferiores, n'uma imita??o burgueza do pitoresco Plut?o-n?o acredito. N?o, n?o acredito! Céo e Inferno s?o concep??es sociaes para uso da plebe-e eu perten?o á classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das D?res: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil reis, implorei a benevolencia do senhor deputado; igualmente para me subtrahir á tisica, á angina, á navalha de ponta, á febre que vem da sargeta, á casca de laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males publicos, necessito ter uma protec??o extra-humana. Ou pelo rapa-pé ou pelo incensador o homem prudente deve ir fazendo assim uma serie de sabias adula??es desde a Arcada até ao Paraiso. Com um compadre no bairro, e uma comadre mystica nas Alturas-o destino do bacharel está seguro.

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